Monday, October 20, 2008

Despropósitos sem crítica


Chamou-me a atenção ao ler o El País do dia 17/10/08, encontrar a crítica de dança escrita pelo Sr. Roger Salas intitulada Despropósitos sin baile a respeito da obra “Pitié!” dirida pelo coreógrafo belga Alain Platel.

Por não haver visto a obra referida não me parece adequado contrapor pontos de vista sobre ela. Assim como não tenho nenhum interesse em defender as opções estéticas do coreógrafo belga (rebatidas com tamanho furor e desmedida agressividade pelo crítico deste jornal). Venho apenas questionar os valores e “despropósitos” desta crítica, uma vez que o texto publicado neste jornal peca pela falta de rigor, parâmetros de análise e um excessivo julgamento de valor.

Em contato com afirmações tão pejorativas quanto absolutas, torna-se evidente que o Sr. Roger Salas encontrou nesta obra aquilo que ele define como “no hacer nada bien”. Ao que pode-se deduzir que para o crítico referido deve existir “una forma de hacerlo bien”, levando nos a refletir sobre a existência de padrões supremos de legitimação social da arte.

Ao que parece, para o Sr. Crítico existem regras para o fazer artístico, cânones que ele não nos permite o conhecimento, transparecendo uma visão autoritária, extremamente subjetiva, até mesmo reacionária. Ao refletir sobre o título da sua crítica, inversamente, procuro entender o que significariam “despropósitos con baile”, ou “propósitos con baile”. E inevitávelmente pergunto: quais seriam os “propósitos de un baile”, Sr. Crítico?

No caso de existirem regras em arte, elas são muitas, tantas quantos são seus processos e resultados. Tentativas de definir o fazer artístico nunca foram suficientes, correndo sempre o risco de serem redutoras. No entanto, “As Normas do Gosto” (como já esclareceu David Hume, 1757), “servem ao propósito de constituir o espaço público da civilidade burguesa através de meios de legitimação”, trata-se, por tanto, de uma questão de poder. Encontrada no meio de comunicação social “El País”, me pergunto a que propósito esta crítica corresponde.

Em suas palavras: “Uno de los grandes dramas de la danza contemporánea es la nociva creencia de que este género es- por libre- un cajón de sastre donde cabe todo, y que, por ende, el público debe tragarse imperturbable lo que le hechen. Pues no.”, ao que não evito perguntar: em que lugar o Sr. Crítico situa a dança contemporânea?

Ao idealizar uma única forma de dança, todas as outras se transformam em negações da ideal, adjetivadas aqui com “despropositadas”, suas falhas recaem no simples fato de não atenderem aos mesmos propósitos da forma idealizada. E ao exigir uma danza ideal pura, o Sr. Roger Salas ignora o desenvolvimento e cruzamento das histórias da arte, das ciências cognitivas, da filosofia contemporânea, para não dizer das culturas. À sua exigência de uma regra afirmo que arte é exceção.

É sabido que a prática analítica requer conhecimento e observação da matéria analisada. Ao que para exercer uma análise precisa é necessário ir ao encontro a seu objeto, observá-lo como ele se apresenta, minuciosamente, não como se gostaria que fosse, evitando assim, expectativas e julgamentos que apenas produzem a cegueira crítica. Embora seja preciso reconhecer que “los límites de mi lenguaje significan los límites de mi mundo”, como bem explica Wittgenstein. Pensamento este que parece esclarecer a reacção cerrada do Sr. Crítico.

Longe de expor reflexões a cerca da prática artística contemporânea, o dito “ensaio crítico” se revela um discorrer dos valores pessoais do Sr. Roger Salas adjetivados sobre a profissão e o fazer artísticos. Valores estes que nada me interessam.

Peço portanto à Edição do jornal El País mais cuidado com as opiniões divulgadas.

Atenciosamente,

João Costa Lima

* À propósito: será que o propósito de um baile não seria ele mesmo?

4 comments:

Jampa said...

Parabéns pelo aniversário. E pela crítica da crítica. É preciso dar esse retorno sempre para que a idéia de que jornalista e crítico sejam "formadores de opinião e gosto" não vire um mantra odioso de alguns que se dizem bem informados contra a maioria (imaginada como burra e com mau gosto). Abração!

Anonymous said...

Passando por aqui. Dado

Bernardo Jurema said...

Que resposta lúcida, joão. muito bem colocado. Mandaste pro jornal? Houve alguma resposta?

Feliz aniversário pro blogue!

abraços!

underskin said...

Obrigado pelos comentários.
Berna, enviei sim mas não recebi nenhuma resposta. Talvez o Sr. Crítico não seja um grande adepto do diálogo...